Todo e qualquer fato pode ser associado à geografia. Não é a toa que ela é a disciplina da atualidade.

A lenda da Primavera…

Manoubia Bouazizi já se acostumou com a ideia de que seu filho Mohamed não pertence mais a ela, mas ao mundo árabe.

Nas ruas perto de sua casa, na periferia de Túnis, ela é interpelada por pessoas que a reconhecem, que ouviram dizer que é a mãe do vendedor do mercado que se incendiou em protesto contra o regime autoritário, o que deu início à Revolução de Jasmim e, assim, à Primavera Árabe. Sua imagem está em toda parte.

Na esquina de sua casa, uma pizzaria colocou na vitrine uma reprodução colorida do rosto de Mohamed para anunciar um “menu revolucionário” com desconto especial. (…)

 A família recebeu 20 mil dinares tunisianos (cerca de 9 mil libras-esterlinas ou quase 24 mil reais) do ex-presidente Zine al-Abidine Ben Ali como indenização por sua perda…(…)Mas sua recente prosperidade está em evidência

A família Bouazizi costumava morar em uma modesta casa de concreto na cidade de Sidi Bouzid, no centro da Tunísia. Hoje Manoubia, seu marido e seis filhos sobreviventes se mudaram para um grande apartamento em La Marsa, bonito subúrbio de Túnis, à beira-mar. (…) Para Manoubia, assim como para os que a rodeiam, parece que o homem foi superado pelo mito. (…)

Os fatos são que em 17 de dezembro do ano passado Mohamed, um vendedor do mercado cujo pai havia morrido quando ele tinha 3 anos e que ajudava a sustentar a família financeiramente desde os 10, ateou fogo a si próprio depois de uma discussão com uma fiscal municipal sobre onde ele podia vender suas frutas e legumes. À época, foi amplamente noticiado que a inspetora, chamada Fedia Hamdi, que tinha fama de rígida, havia dado um tapa no rosto de Mohamed, o insulto máximo em uma comunidade árabe patriarcal. O confronto parecia colocar um homem comum, que lutava para ganhar a vida, contra o símbolo uniformizado de um regime corrupto.

O suicídio de Bouazizi, aos 26 anos, foi considerado por muitos um ato originário de sua intensa frustração com o governo autoritário. Tornou-se o dominó que caiu e provocou revoluções em cadeia por todo o mundo árabe. Em Sidi Bouzid, uma cidade de cerca de 70 mil habitantes a 300 quilômetros da capital, Túnis, multidões se reuniram diante da sede do governo, a entoar slogans contra um Estado ditatorial que humilhava os cidadãos. (…)

Os protestos ocorreram contra inúmeras injustiças: a falta de liberdade de expressão, o desemprego- crescente, o aumento vertiginoso dos preços dos alimentos e a corrupção endêmica do regime. Sob o governo de Ben Ali, o suborno das autoridades era um fato consumado, a corrupção prosperava e a família do presidente levava uma vida extravagante à custa da população. Mohamed Bouazizi não era o único em desespero. “

A Tunísia era conduzida como um Estado da máfia”, explica Alibi Rohidi, professor assistente em Meknassy. (…)

 Em 14 de janeiro, 28 dias depois da autoimolação de Bouazizi, o presidente fugiu para a Arábia Saudita. A Tunísia estava livre. Parecia que tudo fora provocado pelo tapa fatídico que havia empurrado um feirante para além da borda. A não ser que, segundo a inspetora municipal no centro da polêmica, o tapa tenha sido inventado. Na visão de Fedia Hamdi, a Revolução de Jasmim baseou-se em uma mentira. Fedia Hamdi é uma mulher pequena e vacilante que parece mais velha do que seus 46 anos.

Ela se move com a cautela exagerada de uma idosa, como se temesse tropeçar. (…)  Sua fragilidade, ela explica, se deve principalmente ao tempo que passou na prisão. Depois da confusão com Bouazizi, uma investigação interna das autoridades municipais a exonerou de qualquer erro de conduta.

Apesar disso, ela foi detida por ordem de Ben Ali em 28 de dezembro, como uma última tentativa de acalmar os rebeldes. “Acho que fui um bode expiatório”, diz hoje. “Eu jamais o teria agredido. Era impossível, porque sou mulher, em primeiro lugar, e vivo em uma comunidade árabe tradicional que proíbe que uma mulher agrida um homem. Em segundo lugar, eu estava assustada… estava apenas fazendo meu trabalho.” Após um curto período de detenção domi

ciliar, Fedia passou quase quatro meses em uma prisão para infratores civis em uma cidade próxima, Gafsa, apesar de continuar a declarar inocência. Na cadeia ela fez greve de fome durante 15 dias até que os médicos intervieram. “Fiquei doente”, explica. “Durante um mês não revelei minha identidade às outras prisioneiras porque tinha muito medo do que elas fariam contra mim.” Após Ben Ali deixar o país a maré começou a virar.

Em fevereiro, uma estação de tevê tunisiana revelou que a mãe e o padrasto de Bouazizi tinham aceitado dinheiro do presidente, apesar de terem negado isso antes. Hamdi sentiu-se suficientemente segura para contar a suas colegas prisioneiras quem era ela. Em vez de a rejeitarem, as outras manifestaram seu apoio.

Diante da porta da prisão, ex-colegas de Fedia Hamdi montaram um grupo do Facebook que fez campanha por sua libertação. “Tornou-se a história de uma prisioneira política”, diz Rohidi. “Nos cafés, as pessoas reunidas diziam que Fedia tinha sido presa injustamente pelo presidente, que ele a havia transformado em exemplo….

Leia o artigo inteiro AQUI

(FONTE:Carta Capital)

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